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Cultura

Padre Luso, um Apóstolo do Sertão do Tocantins

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Pode-se dizer, na acepção da palavra, que era um sacerdote vocacionado para servir a evolução da humanidade e despertar a bondade nas pessoas. Era, assim, um dos pré-requisitos das altas virtudes que lhe exornavam a alma. Abraçou, por vocação, a carreira eclesiástica, aliás, custou-lhe muito ser padre, opôs-se lhe, porém, tremenda dificuldade na assimilação dos estudos teológicos, quase que o não ordenavam. Mas, à força de rogar a Deus, consolidou o seu sonho de tornar-se padre, e sempre se manteve na mansidão dos justos, dos postulantes, dos adeptos e avatares”,  Moura Lima. 

* Moura Lima

Era noite densa. O vento geral sibilava nos buracos das telhas-vãs dos velhos casarões centenários. O rio Tocantins rugia nas ribanceiras, ainda, na sua pureza original, sem ser profanado, e tornar-se um rio prisioneiro, moribundo e afogado pela mão impositiva do homem; e silencioso continuava na harmonia universal, a sua eterna caminhada. Padre Luso, ali, enclausurado, na sua cela de estilo medieval, à luz mortífera de uma vela de sebo, realizava as suas orações, rezando de joelhos, no genuflexório. O seminário São José dormia e, consequentemente, a cidade de Porto Nacional. Lá fora cães errantes ladravam ao luar de agosto. E cá dentro do vetusto casarão, padre Luso, movido pela força gravitacional de sua bondosa aura, atraiu de outras dimensões, do imenso espaço cósmico, uma alma sofredora, que, numa névoa de prata, se materializou à sua frente, naquele momento de extrema devoção, e murmurou agonizante:

— Reze por mim, padre Luso!… Estou morrendo! É fria a laje da prisão!…
Padre Luso, sem sobrosso, balbuciou, dedilhando as contas do rosário, em tom natural de quem conhecia bem as outras dimensões:

— Intercederei por ti, meu filho, junto ao Pai! Reze também, meu filho, Deus ama o perdão e a libertação das almas!

O rosto do santo padre estava radiante, e um nimbo de luz brilhava ao redor de sua cabeça, enquanto seus olhos cintilavam de fulgurante energia.

A imagem daquele homem amulatado, de semblante triste, como se tivesse recebendo um faconaço no peito, repetiu, outra vez, o seu brado de dor:

— Reze por mim!…

A visagem fantasmagórica foi desaparecendo, aos poucos, na penumbra bruxuleante do lume da vela de sebo, daquele quarto de orações e de profundas vibrações, que unia a terra ao céu através do poder da oração.

Padre Luso, maranhense de Santo Antônio de Balsas, nasceu em 1906, foi ordenado sacerdote pelo Bispo Dom Alano, na Catedral de Porto Nacional, onde faleceu em 1987, com 81 anos de idade. Era um devoto de Nossa Senhora de Fátima. Pode-se dizer, na acepção da palavra, que era um sacerdote vocacionado para servir a evolução da humanidade e despertar a bondade nas pessoas. Era, assim, um dos pré-requisitos das altas virtudes que lhe exornavam a alma. Abraçou, por vocação, a carreira eclesiástica, aliás, custou-lhe muito ser padre, opôs-se lhe, porém, tremenda dificuldade na assimilação dos estudos teológicos, quase que o não ordenavam. Mas, à força de rogar a Deus, consolidou o seu sonho de tornar-se padre, e sempre se manteve na mansidão dos justos, dos postulantes, dos adeptos e avatares. Chamavam-no o piedoso, em razão das suas ações em prol dos necessitados, e da força espiritual que promanava da sua palavra amiga e de paz profunda.

Ele era de estatura meã, magríssima, desengonçada, capengava de uma perna, mas naquele corpo frágil morava uma alma superior, onde pulsava a consciência cósmica ou poder divino. A cabeça enorme, chata, como convém a um maranhense da gema. O rosto, branco, com sulcos profundos, sinalizavam as dores do mundo, e os olhos, límpidos, penetrantes, místicos, denotavam a força espiritual de seu ser; o nariz, achatado e proeminente, demonstrava um caráter disciplinado. Era um santo reservado, que cumpria rigorosamente os cânones da igreja. Não era daqueles santos rebeldes que saem pelo mundo afora pregando à multidão. Repito, era ordeiro e disciplinado na sua caminhada de luz.
Ali nos corredores do seminário, era comum ver, a distância razoável, a sua aura luminosa, especialmente quando saía em orações. A sua memória era prodigiosa, simplesmente lembrava tudo e de todos, podiam passar os anos.

Naquelas tardes bochornosas de setembro, quando a canícula era intensa, saía ele pelos jardins do seminário em orações, e aí ocorria um fenômeno fantástico: o da levitação! Quantos não o viram flutuando no ar! Várias pessoas! Seminaristas e os próprios colegas de sacerdócio dão os seus testemunhos!

Uma noite, padre Luso acordou e entreviu, à luz do luar que penetrava pela janela rústica da sua alcova, um vulto que se movia dentro de um círculo luminoso. Era uma figura venerável de um ancião, com uma barba longa em leque descendo no peito, e tinha o hábito secular de burel. Ao longo do balandrau pendia um rosário, desses de contas graúdas, tinha a aparência de monge franciscano. E disse-lhe, à cabeceira da cama:

— A sua igreja será construída!…

A visão se dissipou no ar. Anos mais tarde, essa profecia se materializaria na construção da Igreja de São Judas Tadeu, hoje conhecida como a igreja do padre Luso, em Porto Nacional.

Nas minhas andanças pelos sertões do norte de Goiás, hoje Tocantins, sempre ouvi falar dos milagres atribuídos ao padre Luso, e um dos que me chamaram a atenção foi de Pedro Pati, capiau domador de animais, nos boqueirões da Serra do Carmo, que um dia levou uma queda de burro chucro, e foi parar no fundo de uma rede, numa prostração de quebra de ossos. As noites indormidas não lhe trouxeram repouso, e ficou exânime, no morre-não-morre, mas deram-lhe, em contrapartida, tempo para encaminhar a Porto um positivo em busca de socorro. Foi só o positivo chegar ao destino e falar com o padre Luso, que Pedro Pati sentiu de cá alívio imediato. E o homem, de mãos postas, agradeceu a Deus longamente, humanamente, o milagre!

Era assim padre Luso, bastava orar a distância, que ocorriam as curas!
A vigília do velho sacerdote foi longa, até os albores da madrugada. Os raios solares já começavam a dourar a Catedral de Nossa Senhora das Mercês e o rio Tocantins. Pairava pelo mundo um cheiro de incenso e magia.

Era a luz vencendo as trevas!

Obs.: Texto extraído do livro do autor-NEGRO D’ÁGUA-MITOS E LENDAS DO TOCANTINS – Edit. COMETA, 1.ª Edição.

* TEXTO PUBLICADO NO JORNAL ATITUDE. GURUPI-TO.

*Moura Lima é advogado, Pós-graduado em Língua Portuguesa, escritor, Romancista, contista, ensaísta e membro fundador da Academia Tocantinense de Letras; pertence também à Academia Piauiense de Letras. E-mail: [email protected]

Ao desenvolvermos as seções de Agronegócio, Cidades, Opinião, Social, Cultura, Educação e Esporte, Meio Ambiente e Política procuramos atender a necessidade do público em ser informado sobre os acontecimentos locais, regionais ou próximos à comunidade.

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