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Lições do filme Divergente – o preço de ser diferente
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Lições do filme Divergente – o preço de ser diferente

“Na nossa sociedade a maior dificuldade que as pessoas podem encontrar é quando descobrem que não se encaixam em nada do que aí está; melhor dizendo, é quando apresenta uma natureza que escapa da estrutura estabelecida; o que significa numa linguagem metafórica uma carta fora do baralho, um peixe fora d’água ou coisa do tipo”, João Nunes da Silva.


João Nunes da Silva

Doutor em Comunicação e cultura contemporâneas, Mestre em Sociologia e professor adjunto da UFT- Campus de Arraias. Trabalha com projetos em cinema e educação.


O filme Divergente, dirigido por Neil Burger, 2014 é o primeiro da trilogia baseada na obra da escritora Verônica Roth; na sequencia tem-se Insurgente e Convergente. Trata-se de uma ficção e suspense com muita ação e tem como eixo central a luta de uma garota de 16 anos que vive numa Chicago futurística recém destruída após uma guerra.

Nessa cidade a população foi dividida em cinco grupos, mais conhecidos como facções, as quais representam cada qualidade humana: franqueza, amizade, audácia, erudição e abnegação.

A garota Beatrice, que depois passa a ser chamada de Tris, se vê numa situação difícil quando tem que escolher sua facção pelo fato de apresentar uma natureza eclética, pois, sua personalidade se encaixa em mais de uma facção. Com isso passa a ser vista como um perigo e, consequentemente, é perseguida pelas facções rivais.

Nota-se, portanto que ser diferente custa muito caro numa sociedade marcada pela padronização como a de nossos dias. Nesse tipo de sociedade o indivíduo é forçado a seguir as regras estabelecidas pelo grupo hegemônico para o qual não se permite, em nenhuma hipótese, algum elemento fora do controle.

 DivergenteO filme Divergente apresenta uma trama formidável ao trabalhar com as cinco facções mais o elemento divergente, pois, a partir de então constrói uma narrativa que atrai o espectador e permite a reflexão sobre a estrutura da nossa sociedade, especialmente sobre os padrões estabelecidos e as relações de poder existente.

 A idéia de caracterizar cada facção a partir das qualidades inerentes a natureza dos indivíduos (franqueza, amizade, audácia, erudição e abnegação) mostra a complexidade existente na sociedade para lidar com as diferentes personalidades e, principalmente quando determinados indivíduos não se enquadram necessariamente em nenhuma delas especificamente.

Na nossa sociedade a maior dificuldade que as pessoas podem encontrar é quando descobrem que não se encaixam em nada do que aí está; melhor dizendo, é quando apresenta uma natureza que escapa da estrutura estabelecida; o que significa numa linguagem metafórica uma carta fora do baralho, um peixe fora d’água ou coisa do tipo.

É preciso ter em conta que as estruturas estabelecidas carregam em seu seio processos históricos e culturais que envolvem relações de poder cujos agentes estão em constantes disputas pela hegemonia.

Aqueles que se encontram no comando da situação em geral estabelecem regras e normas para a maioria conforme seus interesses e valores com vistas a perpetuação no poder de acordo com as suas conveniências. Assim estabelecem padrões de comportamento a serem seguidos pela maioria sob pena de serem punidos os que se mostrarem contrários.

Ser divergente dos padrões estabelecidos torna-se uma forte ameaça para os detentores do poder. Para convencer a maioria da sua pretensa verdade os grupos hegemônicos valem-se de mecanismos ideológicos que se mostram nos discursos, práticas e ações do cotidiano das instituições e organizações sociais.

Quando esses mecanismos não são suficientes, em função da possibilidade do imponderável e das contingências, como a evidência de um divergente, o autoritarismo, a truculência e a ameaça se tornam uma prática institucionalizada em nome da lei e da ordem.

O diferente se torna uma ameaça à ordem social estabelecida porque mexe com o padrão, que por sua vez é considerado normal, necessário e estável. Com isso há um consenso da maioria que se vê acomodada seja por medo, por desconhecimento dos mecanismos de funcionamento da sociedade e de sua força ou por pressão maior exercida sobre a coletividade.

O divergente autêntico enfrenta seus medos e a pressão exercida pela maioria, bem como pelas elites que dominam e impõem a perpetuação das estruturas vigentes e, por sua vez, os privilégios daqueles que se apresentam no topo da pirâmide social.

Esse diferente por si só encontra também sérias dificuldades para a superação do modus operandi vigente que torna a vida da maioria dos indivíduos num verdadeiro inferno; para enfrentar tal realidade precisa aos poucos encontrar eco naqueles que de alguma forma se identificam com seus problemas e angústias; com isso poderá intentar contra a estrutura de dominação quando consegue arregimentar um numero suficiente de insatisfeitos com a realidade que sufoca.

Mas enfrentar a estrutura de dominação, que foi construída ao longo do tempo, em geral por uma minoria que se impôs pela exploração e pela pilhagem, como aconteceu com os processos de colonização nas várias partes do mundo, nunca foi uma tarefa fácil; isto porque aqueles que adquiriram os privilégios pela exploração jamais aceitam perder sequer o mínimo do que açambarcou, mas sim, fazem de tudo para sua perpetuação impondo a legitimidade por meio de diversos mecanismos  escusos, especialmente pela manipulação da informação.

O maior medo das elites é que aqueles que estão na base da pirâmide social tomem conhecimento de sua força e dos mecanismos de funcionamento da sociedade e que escancarem tal realidade de opressão. Por isso que a mídia tradicional, controlada pelos representantes dos segmentos hegemônicos, manipula a informação contando com a ignorância da maioria.

São essas algumas das lições do filme Divergente; daí sua importância para debater em sala de aula, e nos diversos espaços sociais, as relações de poder e a forma como a sociedade é constituída e reproduzida ao longo do tempo. 

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